quinta-feira, 13 de março de 2014

Albrecht DÜRER Os cavaleiros do Apocalipse (1498)


Sobre esta xilogravura de Dürer, do auge da Renascença, Michel Foucault comenta, na sua História da Loucura: "(...) em Dürer, os cavaleiros do Apocalipse, exatamente aqueles que foram enviados por Deus: não são os anjos do Triunfo e da reconciliação, não são os arautos da justiça serena, mas sim os guerreiros desenfreados da louca vingança. O mundo mergulha no Furor universal. A vitória não cabe a Deus, nem ao Diabo, mas à Loucura." (FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 1987, p.22)



sábado, 1 de março de 2014

GREGÓRIO DE MATOS Descreve a confusão do festejo do Entrudo


SONÊTO

Filhós, fatias, sonhos, mal-assadas,
Galinhas, porco, vaca, e mais carneiro,
Os perus em poder do Pasteleiro,
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas.

Enfarinhar, pôr rabos, dar risadas,
Gastar para comer muito dinheiro,
Não ter mãos a medir o Taverneiro,
Com réstias de cebolas dar pancadas.

Das janelas com tanhos dar nas gentes,
A buzina tanger, quebrar panelas,
Querer em um só dia comer tudo.

Não perdoar arroz, nem cuscuz quente,
Despejar pratos, e alimpar tigelas,
Estas as festas são do Santo Entrudo.


Gregório de Matos


Observações sobre o vocabulário do poema:

Filhó: biscoito ou bolinho feito de farinha e ovos, frito, e, em seguida, passado em mistura de açúcar e canela ou molhado em calda aromatizada de mel.
Fatia: rabanada.
Sonho: doce feito com massa cozida de farinha de trigo, ovos, leite, frito em gordura e geralmente polvilhado com açúcar e canela.
Mal-assada: Fritada (espécie de omelete).
Pulha: brincadeira maliciosa e de mau gosto que consiste em ato de zoar uma pessoa, levando-a a fazer perguntas cuja resposta reverte em escárnio dela mesma (tipo “Quem é? É o Mário. Que Mário? Aquele que te pegou atrás do armário.” e por aí afora). “Deitar pulhas” aparece com o sentido de fazer, aplicar pulhas.
Tanho: assento de tábua.

Entrudo: festejos realizados no Brasil colonial e imperial, que se transformaram no atual carnaval. O Entrudo de que nos fala Gregório de Matos ocorreu em Salvador (ou “Cidade da Bahia”, como se dizia na época), por volta de 1690.


Machado de Assis CÍRCULO VICIOSO


Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
– “Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
                      
– “Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

– “Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

– “Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”




Machado de Assis (em Ocidentais, 1901)