quarta-feira, 27 de março de 2013

As estratégias de manipulação


     Há vários anos vem circulando na rede um texto que aborda técnicas políticas de manipulação das massas, praticadas sobretudo pela mídia. O texto é frequentemente atribuído ao linguista e ativista norte-americano Noam Chomski, intelectual ativo nas críticas e denúncias das artimanhas da política conservadora de seu país e do capitalismo internacional. Entretanto, na verdade, ele foi escrito e publicado pela primeira vez em francês, no ano de 2002, pelo sociólogo francês Sylvain Timsit, e expressando uma crítica politicamente vinculada ao pensamento da chamada “extrema esquerda” francesa. No link http://www.legrandsoir.info/A-propos-des-dix-strategies-de-manipulation-de-masses-attribue-a-Noam-Chomsky.html, o cientista social francês Jean Bricmont publica um desmentido à autoria do texto, acompanhado de trechos de entrevista com o próprio Chomski, em que ele afirma não ser o autor, embora observe que o texto pode ter alguns de seus escritos como base. Mas há aspectos, como por exemplo no item 10, que se afastam das ideias de Chomski: enquanto Timsit defende que o sistema usa o conhecimento científico para controlar as pessoas, Chomski acredita que o conhecimento realmente científico do ser humano é muito limitado para que possa ser usado com tal objetivo. Para Bricmont, o texto é uma simplificação do pensamento de Chomski a respeito do assunto:
     “O sucesso aparente desse texto ilustra bem a má compreensão do pensamento de Chomski a propósito da ‘manipulação’, tanto entre partidários como entre adversários dele. Lui e Ed Herman, co-autores de ‘A fabricação do consenso’ (2008), não sugerem em nenhum momento que existe em algum lugar uma organização oculta que ‘manipula as massas’. Eles mostram que existe um certo número de filtros, ligados à propriedade privada das mídias, à necessidade de publicidade, à ação de grupos de influência etc., que têm como resultado que a visão de mundo veiculada pelas mídias seja extremamente enviesada, mas tudo isso funciona um pouco como a ideologia em Marx, um processo sem sujeito.” (Bricmont) 
     Para nós, independentemente de se concordar ou não com todos os itens do texto, e mesmo que ele contenha exageros, Timsit caracteriza bem a ação que os meios de comunicação exercem sobre o universo social e cultural. Embora a realidade na França possa ser outra, aqui no Brasil, a estas alturas, já se pode identificar uma conspiração organizada pelos que detém a propriedade das mídias (são apenas meia dúzia de grupos econômicos que dominam o mercado), junto a grupos da direita política, para exercer o domínio sobre a sociedade, levando-os a coordenar suas ações, de modo explícito, no sentido de concretizar várias das estratégias listadas por Timsit. Em virtude do interesse levantado pela discussão, publicamos aqui o texto traduzido diretamente do francês, a partir da publicação original no link http://www.syti.net/Manipulations.html, e restituindo a autoria desse texto a quem é de direito.

Observação: citado várias vezes por Timsit, o texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”, datado de 1979, é um documento encontrado por acaso em 1986 em meio a equipamentos leiloados oriundos do exército norte-americano, e que se apresenta como um “manual técnico” para promover a manipulação das massas através de meios de comunicação. Não possui assinatura ou indicações de onde provém, e não se sabe se foi achado realmente por acaso, por falha de segurança, ou se foi plantado intencionalmente por algum motivo, ou se é apenas uma burla. Suspeitas sobre sua autoria o remetem ao Clube Bilderberg, reunião periódica de grandes empresários e líderes políticos, destinada a fortalecer a OTAN, e que os mais imaginativos ligam a uma conspiração mundial para dominar o mundo. Essa informação acentua o viés “conspiracionista” do texto de Timsit, embora ele mesmo não fale nesses termos em seu texto. Aqui deixamos de lado a conspiração mundial, na qual não acreditamos (ela não é de fato necessária), e preferimos levantar a bola para um debate sério a respeito do assunto.



ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO
As estratégias e as técnicas dos Donos do Mundo para a manipulação da opinião pública e da sociedade


1- A estratégia da distração.

Elemento primordial do controle social, a estratégia da distração consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, graças a um dilúvio contínuo de distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.
“Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais.” (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)

2- Criar problemas, depois oferecer soluções.

Este método também é chamado “problema-reação-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que ele mesmo reivindique as medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público exija leis de segurança em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para se fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

3- A estratégia da gradação.

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, é suficiente aplicá-la progressivamente, “em degradado”, sobre uma duração de 10 anos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas têm sido impostas durante os anos de 1980 a 1990. Desemprego em massa, precarização, flexibilização, realocações de trabalhadores, salários que já não garantem uma renda decente, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de forma brusca.

4- A estratégica do adiamento.

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública no presente para uma aplicação no futuro. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para se acostumar com a ideia da mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

5- Dirigir-se ao público como crianças de baixa idade.

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizante, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê?
“Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos de idade” (do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

6- Fazer apelo ao emocional muito mais do que à reflexão.

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto-circuito na análise racional, e por fim ao sentido crítico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para aí implantar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos…

7- Manter o público na ignorância e na mediocridade.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.
“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça incompreensível para o alcance das classes inferiores” (do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

8- Encorajar o público a se comprazer na mediocridade.

Encorajar o público a achar “cool” o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…

9- Anular a revolta através da culpabilidade.

Fazer o indivíduo acreditar que ele é o único culpado pela sua própria infelicidade, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo do qual um dos efeitos é a inibição da sua ação. E sem ação, não há revolução!

10- Conhecer os indivíduos melhor do que eles próprios se conhecem.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência criaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto fisicamente como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

Sylvain Timsit

Para situar a conversa


     Esta é a era da comunicação de massas. A arte e a cultura de nosso tempo resultam de um choque entre formas e práticas vindas de milênios através de tradições diversas e seu legado criativo, e a sua apropriação mercenária pela indústria cultural, que busca vampirizá-las, desmontando-as e remontando-as, simplificadas, em produtos culturais de confecção barata, prontos para serem consumidos por massas consumistas, alienadas e conformistas, gerando o tal dinheiro para a indústria cultural e legando ao esquecimento (não é exagero) tantos artistas autênticos, que contribuem efetivamente para transmitir aquelas formas práticas da tradição e trabalhá-las criativamente, atividade cujo valor maior está em outro lugar, num plano diferente do dinheiro.
     Para fazer isso, essa indústria conta com um grande contingente de paus mandados que se dispõem a simular a experiência da arte, tomando o cuidado de afastar o que fazem de qualquer reflexão ou atitude crítica (Janjões modernos), em troca de mais ou menos... dinheiro. Somado aos paus mandados, que formam o estofo humano da equação, um portentoso aparato tecnológico, que custa um bom dinheiro, é o veículo material da indústria cultural. Ele é composto por um imenso conjunto de diferentes máquinas produzidas industrialmente e interconectadas. Essa estrutura tecnológica, filha da ciência com o capital, está organizada num sistema batizado de “mídia” pelos gringos, e se nos apresenta com um valor embaraçosamente ambíguo: tanto abre espaço para a liberdade de pensamento que se exercita nesta página da internete como se presta tão frequentemente a servir de instrumento de dominação, hipnotizando as massas humanas sobre as quais incide, com o intuito de manipulá-las ao bel prazer.
     Neste choque, até meio cósmico para nós, a parte que fica mais destruída é a das tradições diversas. Demonstrando na prática as proposições dos filósofos franceses Deleuze e Guatarri, o universo cultural do capitalismo, encarnado na indústria cultural, se apropria das formas, dos códigos culturais e dos valores dos sistemas culturais pré-capitalistas, mais singulares e restritos, e os submete à lógica abstrata dos valores do capital, que se impõe como sistema geral e hegemônico por onde quer que grasse o modo capitalista de viver.  Os europeus viveram esse processo há tempos, na condição de criadores da modernidade e um de seus principais centros. A situação do Brasil, cujo processo de modernização se intensificou a partir de meados do século XX, portanto muito recentemente, pode ser caracterizada a partir da proposta desses franceses, num momento – as duas últimas décadas – em que a continuidade do significado dessas tradições na sociedade parece estar posto em cheque. Pois não são simplesmente as formas da tradição que estão cerceadas pelos interesses da indústria cultural capitalista, mas a visão de mundo da sociedade se transforma em função da hegemonia do capitalismo.
     Particularmente, para quem vive no interior, como nós, contemplamos ao longo dessas duas décadas mudanças profundas na paisagem do mundo e da vida ao nosso redor. Em alguns aspectos devido às mudanças contínuas (chamadas de “neoliberalismo”) que convulsionam o planeta desde os anos 80 e a queda do Muro de Berlim, e em outros devido à prosperidade do agronegócio selvagem em nossa região, que tomou conta da terra disponível no campo, expulsando quase toda a sua população para as cidades, alimentando com esse êxodo os problemas urbanos já existentes e criando outros, e ocupando a área rural com monocultura de cana, soja ou gado. A paisagem que rodeou a infância de muitos era outra, e tudo se integrou de tal forma aos “avanços” do capitalismo que a própria infância já não é a mesma.
     Falar de moderno, de modernidade, mais do que apenas de coisas novas ou atuais, é falar num período histórico, período que é o da própria formação do país. A modernidade tem seu início no chamado Renascimento europeu, nos séculos XV e XVI, mas vai se consolidando aos poucos até a virada do século XVIII para o XIX, quando se instala na Europa Ocidental e na América do Norte, ao ganhar forma com a Revolução Industrial na Inglaterra, a revolução política na França, a independência dos Estados Unidos e logo depois das colônias da América Latina, inclusive a do Brasil, e, na arte, com o aparecimento da arte romântica. Da Europa e Estados Unidos se espalha pelo mundo nos 200 anos seguintes, chegando aos rincões mais remotos do planeta e até ao espaço sideral, a julgar pela nuvem de lixo espacial em órbita da Terra.
     A época moderna é que rompeu com as sociedades tradicionais e seu modo de ver a vida, criando a sociedade civil, a separação entre igreja e Estado, o iluminismo, o capitalismo selvagem, o progresso científico, a arte como expressão da individualidade, o socialismo, os motores à explosão, a opinião pública, a internete, a bomba atômica, a liberação dos costumes, os aeroportos, as xacretes e os fascistinhas de plantão. Ela tem a sua importância na conquista de uma vida mais digna e livre pelas pessoas, e também na criação dos maiores esquemas de exploração do outro e de repressão de todos já vistos na história. Essa existência contraditória está na essência da modernidade, assim como também (por outros motivos) ocorre em outras épocas históricas. Por isso, não podemos “avaliar” a modernidade como algo de que “gostamos ou não gostamos”: estamos falando de um mundo inteiro, em cujo bojo habitamos, e compartilhamos o seu destino com todos.
     O Brasil, fazendo parte do entorno periférico do capitalismo e da modernidade (aos poucos subindo de posto, right?), foi, desde a sua autonomia em 1822, adotando lentamente os preceitos modernos, obra da classe rica local, tida como integração do país na civilização mundial. Segundo boa análise dos marxistas, o Brasil foi entrando no moderno segundo o esquema da “modernização conservadora”: cada caractere moderno que entra na sociedade brasileira tem uma contrapartida em compromissos com valores políticos e ideológicos dos ricos conservadores, que assim terminam por confrontar a modernização, limitando-a significativamente, neutralizando efeitos considerados nocivos (como as pessoas desfrutando de seus direitos) da modernidade, e então essa classe conservadora pode manter sua influência, seu prestígio e seus valores, cercando-se da aparência de uma modernização civilizada, que na verdade é dissimulação de um processo que atende a interesses variados dessa mesma classe social, configurando nossa versão nacional do capitalismo selvagem.
     O advento do moderno no Brasil carrega uma contradição histórica: a vida moderna abre um espaço para as pessoas terem direitos, serem mais livres, livrando-se um pouco das limitações impostas pelos poderes oligárquicos locais e tradicionais. Mas, escaneado e pressionado pelo esquema da modernização conservadora, o processo de modernização brasileira reenquadra a sociedade nos imperativos interesses daquelas classes abastadas, e faz isso de várias formas. Em muitos casos, e cada vez mais na atualidade, a instauração do moderno ganha um valor ideológico: representa a reafirmação e legitimação conscientes da cultura burguesa (consumista, individualista e alienante) sobre as culturas populares, representantes da identidade cultural do país. Trata-se de uma tentativa de apropriação do universo cultural. Por outro lado, manifestações culturais críticas, como algumas vanguardas e a boa arte de protesto, ao tomarem seriamente um moderno sem concessões a estéticas de mercado, desafiam frontalmente os critérios consagrados de gosto, pagando o preço de permanecerem isoladas num limbo, acusadas de hermetismo ou de serem expressão de minorias pouco influentes.
     Sabemos que a arte, como atividade humana, é muito mais antiga do que tudo isso. Praticada desde a pré-história, foi uma das primeiras coisas que o ser humano fez com a sua linguagem. Se tornou atividade importante em todas ou quase todas as sociedades humanas. Deriva dessa antiguidade ancestral a universalidade do “apelo” artístico; do direito e mesmo do prazer de qualquer pessoa de apreciá-la ou criá-la. Mas, apesar dessa universalidade e em contradição com ela, a arte é criada e apreciada em sociedades humanas concretas, dominadas por problemas reais. Desse modo, a arte produzida nas sociedades modernas e em modernização (conduzidas pelos interesses hegemônicos do capital) adquiriu gradativamente formas mais adaptadas aos valores construídos pela modernidade capitalista, processo que levou à expressão mais acabada dessa modernidade, que é a indústria cultural, cujo desenvolvimento desembocou paradoxalmente na paralisação da arte e na sua transformação em mera fachada de efeitos: a obra entendida como “mercadoria cultural”, deserta de valores estéticos reais.
     Não pretendemos negar aqui o “potencial transformador da indústria cultural”, tão cantado em verso e prosa, defendido por pensadores importantes como McLuhan, Pierre Lévy, Teixeira Coelho e Umberto Eco, por movimentos artísticos como o Tropicalismo, que proclamava ter entrado em todas as estruturas, e pelas lojas de produtos eletrônicos. Reconhecemos que houve mais de um momento em que foi possível que obras de arte encontrassem espaço na indústria cultural, particularmente nos estágios mais antigos de seu desenvolvimento; essa busca de espaço se faz sentir também quando surge a internete como mídia mais democrática do que os tradicionais rádio, cinema ou tevê. Não temos a pretensão de sermos apocalípticos em relação à comunicação de massas, ainda mais num país em que ela tem uma configuração especialmente envolvente. Nós a estamos usando agora.
     Mas a verdade é que vemos claramente, nas últimas décadas, os vários setores das artes serem sistematicamente ignorados e boicotados pelas empresas que compõem a “grande mídia” da indústria cultural nacional: artistas autênticos, que desenvolvem trabalhos sérios de elaboração estética, atuam em esferas diferentes da esfera da mídia. A ideia, já sustentada por muitos, de que o artista da sociedade capitalista “se libertou” de sua antiga tutela à corte do rei, ao sabor do mecenato, porque se transformou em profissional remunerado pelo mercado, revela-se, no Brasil de hoje, uma farsa: o escritor não acha editora, o cineasta não consegue financiamento (a menos que seja vinculado a certa emissora de tevê), o artista de teatro não tem onde encenar, o artista plástico não tem nem ateliê; mesmo a “captação de recursos” das leis de incentivo à cultura está no colo da publicidade e da “fama midiática”. As exceções são poucas e honrosas, mas os verdadeiros artistas brasileiros são constrangidos ideologicamente, todos os dias, por um conceito de obra de arte como mercadoria de entretenimento que não foi criado por eles, mas por pessoas – os empresários e produtores da indústria cultural – que pouco ou nada têm a ver com a arte, com a cultura e com as pessoas que de fato as promovem. Fechar os olhos a isso é negar-se a enxergar a realidade que está diante de quem queira olhar.
     Candongas não fazem festa surgiu para alardear a arte em meio a esse contexto hostil a ela. Nossa reflexão, surgida na transição do século XX para o XXI, chega no momento em que três fatores diferentes coincidem de modo muito interessante. Em primeiro, a crise da arte baseada nos paradigmas estéticos da modernidade, sem solução até o momento. Em segundo, o questionamento dos aspectos destrutivos e agressivos da modernidade, desde o movimento ecológico até o Fórum Social Mundial, o que leva a um inédito questionamento dos próprios valores e princípios modernos, e a inspirar uma reivindicação dos aspectos positivos da modernidade, sem a companhia dos aspectos negativos, em busca de um outro mundo possível. E, enfim, o final da ditadura militar no Brasil e a tentativa da sociedade brasileira de construir um regime político mais democrático no país, o que implica inclusive (embora isso não esteja claro para muitos) na democratização efetiva e regulação legal dos meios de comunicação, monopolizados por meia dúzia de empresas privadas da burguesia nacional, cuja preocupação central é apenas monetária e político-ideológica. Essa burguesia persiste, como forma de legitimar seu poder político e econômico, em uma missão incansável de acumular dinheiro e de tentar forjar com ele uma história coletiva (farsesca) nos moldes de seu próprio olhar sobre o mundo, deixando de fora as visões de mundo e da arte que não ecoem essa olhar, e alienando as massas até que elas engulam sozinhas esse olhar burguês, tomando-o como seu.
     A convergência desses três fatores cria um contexto que nos parece favorável e propício a um debate amplo sobre a sociedade e seus valores culturais, debate que nós, em nossa dimensão modesta frente às grandes empresas que buscam controlar os meios de comunicação para si, temos a pretensão de levar adiante. Que sociedade estamos construindo para todos nós? Que cultura temos e precisamos, na época de maior abundância de informação na história, a partir de nossas concepções de como usar e desfrutar dessa informação em nosso próprio benefício, para criar uma sociedade mais justa e sábia? E o que a arte pode nos dizer sobre isso? Pode ela, em suas manifestações mais criativas e diversas, inundar a realidade, mesmo que provisoriamente, com uma faísca de intuição? Nosso intuito é contribuir para pensar e para sentir esse universo cultural e artístico em que nos miramos.
     Mas não somos apologistas da arte engajada. A arte não tem obrigação nenhuma de abordar tematicamente esses problemas. O artista é livre para dizer o que quiser. Somos contra o direcionamento prévio do trabalho de criação artística, a não ser o que o próprio artista resolva se impor. Nos interessa aqui divulgar e falar da mesma forma sobre obras que busquem se vincular a uma discussão explícita de coisas da realidade, como sobre obras que estejam absolutamente desinteressadas desse tipo de discussão. A questão é que, independentemente do tema abordado, a arte, por sua natureza e papel que tem para o ser humano, já coloca a visão de mundo do nosso tempo, pois ela mexe com os múltiplos pontos de vista que se cruzam em nosso olhar individual e coletivo sobre esse mundo. Por isso ela é um terreno especial para se sentir e pensar a vida em seus diversos aspectos; a experiência da arte nos convida a rever as concepções que temos do mundo onde vivemos e de nós mesmos, e nesse rever, a encontrar prazer.
     Que a arte possa prosseguir e perdurar em seu caminho de continuar a tradição e de reelaborá-la criativamente. Que ela possa driblar as fundações pesadas da indústria cultural, e planando pelas brechas do sistema ela retome o que lhe é de direito na vida da sociedade. Que o trabalho do artista nos divirta e também nos faça pensar, nos faça sentir, e seja uma contribuição efetiva para que tenhamos uma mente mais aberta, um espírito mais leve e uma inteligência mais atenta. Que o significado mais profundo da obra de arte fecunde nossa sensibilidade e abra nossos olhos para o presente e também para o futuro. E que a beleza nos eleve, não no sentido ilusório de uma depuração moral, mas com a felicidade de estar na existência por inteiro. Estamos aí, de boca no mundaréu, para ver que massa isso dá.

Candongas não fazem festa

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Entre o que vejo e digo OCTAVIO PAZ


ENTRE O QUE VEJO E DIGO

               I

Entre o que vejo e digo,
entre o que digo e calo,
entre o que calo e sonho,
entre o que sonho e esqueço,
a poesia.
                  Desliza
entre o sim e o não:
                                  diz
o que calo,
                   cala
o que digo,
                    sonha
o que esqueço.
                          Não é um dizer:
é um fazer.
                     É um fazer
que é um dizer.
                           A poesia

se diz e se ouve:
                            é real.
E apenas digo
                         é real,
se dissipa.
                  Assim é mais real?


               II

Ideia palpável,
                         palavra
impalpável:
                     a poesia
vai e vem
                  entre o que é
e o que não é.
                         Tece reflexos
e os destece.
                       A poesia
semeia olhos na página,
semeia palavras nos olhos.
Os olhos falam,
                           as palavras miram,
os olhares pensam.
                                Ouvir
os pensamentos,
                             ver
o que dizemos,
                           tocar
o corpo da ideia.
                              Os olhos
se fecham,
                    as palavras se abrem.


OCTAVIO PAZ
Tradução de Juliano Garcia




ENTRE LO QUE VEO Y DIGO

               I

Entre lo que veo y digo,
entre lo que digo y callo,
entre lo que callo y sueño,
entre lo que sueño y olvido,
la poesía.
                   Se desliza
entre el sí y el no:
                              dice
lo que callo,
                     calla
lo que digo,
                     sueña
lo que olvido.
                        No es un decir:
es un hacer.
                    Es un hacer
que es un decir.
                           La poesía
se dice y se oye:
                            es real.
Y apenas digo
                         es real,
se disipa.
                ¿Así es más real?


               II

Idea palpable,
                         palabra
impalpable:
                    la poesía
va y viene
                   entre lo que es
y lo que no es.
                          Teje reflejos
y los desteje.
                       La poesía
siembra ojos en la página,
siembra palabras en los ojos.
Los ojos hablan,
                           las palabras miran,
las miradas piensan.
                                   Oír
los pensamientos,
                              ver
lo que decimos,
                           tocar
el cuerpo de la idea.
                                 Los ojos
se cierran,
                  las palabras se abren.


OCTAVIO PAZ

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Rugendas LUNDU (1835)



Machado de Assis TEORIA DO MEDALHÃO


TEORIA DO MEDALHÃO

DIÁLOGO

     – Estás com sono?
     – Não, senhor.
     – Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas são?
     – Onze.
   – Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...
     – Papai...
   – Não te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos sérios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um anos, algumas apólices, um diploma, podes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indústria, no comércio, nas letras ou nas artes. Há infinitas carreiras diante de ti. Vinte e um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira sílaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apesar de precoces, não foram tudo aos vinte e um anos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e ilustre, ou pelo menos notável, que te levantes acima da obscuridade comum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.
     – Sim, senhor.
    – Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.
     – Creia que lhe agradeço; mas que ofício, não me dirá?
     – Nenhum me parece mais útil e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém, as instruções de um pai. E acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, além das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exuberância, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos possas entrar francamente no regime do aprumo e do compasso. O sábio que disse: “a gravidade é um mistério do corpo”, definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espírito; essa é do corpo, tão-somente do corpo, um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto à idade de quarenta e cinco anos...
     – É verdade, por que quarenta e cinco anos?
    – Não é, como podes supor, um limite arbitrário, filho do puro capricho; é a data normal do fenômeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinquenta anos, conquanto alguns exemplos se deem entre os cinquenta e cinco e sessenta; mas estes são raros. Há-os também de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não falo dos de vinte e cinco anos: esse madrugar é privilégio do gênio.
     – Entendo.
     – Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves por todo o cuidado nas ideias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio. O melhor será não as ter absolutamente; coisa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um braço. Ele pode, por um milagre de artifício, dissimular o defeito aos olhos da plateia; mas era muito melhor dispor dos dois. O mesmo se dá com as ideias; pode-se, com violência, abafá-las, escondê-las até à morte; mas nem essa habilidade é comum, nem tão constante esforço convidaria ao exercício da vida.
     – Mas quem lhe diz que eu...
    – Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.
     – Creio que assim seja; mas um tal obstáculo é invencível.
    – Não é; há um meio; é lançar mão de um regime debilitante, ler compêndios de retórica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó, e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente.
     – Como assim, se também é um exercício corporal?
    – Não digo que não, mas há coisas em que a observação desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatísticas mais escrupulosas mostram que três quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada, é utilíssimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é oficina de ideias, e o espírito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, pode adquirir uma tal ou qual atividade.
     – Mas se eu não tiver à mão um amigo apto e disposto a ir comigo?
    – Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatórios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propícias ao nosso fim; e, não obstante, há grande conveniência em entrar por elas, de quando em quando, não digo às ocultas, mas às escâncaras. Podes resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da anedota da semana, de um contrabando, de uma calúnia, de um cometa, de qualquer coisa, quando não prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das belas crônicas de Mazade; 75 por cento desses estimáveis cavalheiros repetir-te-ão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudável. Com esse regime, durante oito, dez, dezoito meses – suponhamos dois anos – reduzes o intelecto, por mais pródigo que seja, à sobriedade, à disciplina, ao equilíbrio comum. Não trato do vocabulário, porque ele está subentendido no uso das ideias; há de ser naturalmente simples, tíbio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...
     – Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo, de quando em quando...
    – Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hidra de Lerna, por exemplo, a cabeça da Medusa, o tonel das Danaides, as asas de Ícaro, e outras, que românticos, clássicos e realistas empregam sem desar, quando precisam delas. Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento. Caveant, consules é um excelente fecho de artigo político; o mesmo direi do Si vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas não te aconselho esse artifício; seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porém, que afinal não passa de mero adorno, são as frases feitas, as locuções convencionais, as fórmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memória individual e pública. Essas fórmulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inútil. Não as relaciono agora, mas fá-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo ofício te irá ensinando os elementos dessa arte difícil de pensar o pensado. Quanto à utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hipótese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz efeito, subsite o mal. Eis aí uma questão que pode aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inquérito pedantesco, a uma coleta fastidiosa de documentos e observações, análise das causas prováveis, causas certas, causas possíveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remédio, das circunstâncias da aplicação; matéria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes! – E esta frase sintética, transparente, límpida, tirada ao pecúlio comum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espíritos como um jorro súbito de sol.
     – Vejo por aí que vosmecê condena toda e qualquer aplicação de processos modernos.
     – Entendamo-nos. Condeno a aplicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia científica; deves decorá-la. Conquanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa atitude de deus Término, e as ciências sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do seu tempo. E de duas uma: – ou elas estarão usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-ão novas: no primeiro caso, pertencem-te de foro próprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que também és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e fenômenos responde toda essa terminologia; porque o método de interrogar os próprios mestres e oficiais da ciência, nos seus livros, estudos e memórias, além de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular ideias novas, e é radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a assenhorear-te do espírito daquelas leis e fórmulas, serias provavelmente levado a empregá-las com um tal ou qual conhecimento, como a costureira – esperta e afreguesada – que, segundo um poeta clássico,
Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,
Menos monte alardeia de retalhos;
e este fenômeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria científico.
     – Upa! Que a profissão é difícil.
     – E ainda não chegamos ao cabo.
     – Vamos a ele.
    – Não te falei ainda dos benefícios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar à força de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas miúdas, que antes exprimem a constância do afeto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores dela mediante ações heroicas ou custosas é um sestro próprio desse ilustre lunático. O verdadeiro medalhão tem outra política. Longe de inventar um Tratado Científico da Criação dos Carneiros, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notícia não pode ser indiferente aos seus concidadãos. Uma notícia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Comissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemérito, um forasteiro, têm singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mitológicas, cinegéticas ou coreográficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caíres de um carro, sem outro dano, além do susto, é útil mandá-lo dizer aos quatro ventos, não pelo fato em si, que é insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome caro às afeições gerais. Percebeste?
     – Percebi.
    – Essa é publicidade constante, barata, fácil, de todos os dias; mas há outra. Qualquer que seja a teoria das artes, é fora de dúvida que o sentimento da família, a amizade pessoal e a estima pública instigam à reprodução das feições de um homem amado ou benemérito. Nada obsta a que sejas objeto de uma tal distinção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnância. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os amigos o expusessem em qualquer casa pública. Dessa maneira o nome fica ligado à pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabeleireiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a “alavanca do progresso” e “o suor do trabalho” vencem as “fauces hiantes” da miséria. No caso de que uma comissão te leve à casa o retrato, deves agradecer-lhe o obséquio com um discurso cheio de gratidão e um copo d’água: é uso antigo, razoável e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se for possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos reporters dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos deles, incumbe a notícia a algum amigo ou parente.
     – Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada fácil.
    – Nem eu te digo outra coisa. É difícil, come tempo, muito tempo, leva anos, paciência, trabalho e felizes os que chegam a entrar na terra prometida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triunfam! E tu triunfarás, crê-me. Verás cair as muralhas de Jericó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua fase de ornamento indispensável, de figura obrigada, de rótulo. Acabou-se a necessidade de farejar ocasiões, comissões, irmandades; elas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e cru de substantivos desadjetivados, e tu serás o adjetivo dessas orações opacas, o odorífero das flores, o anilado dos céus, o prestimoso dos cidadãos, o noticioso e suculento dos relatórios. E ser isso é o principal, porque o adjetivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metafísica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulário.
     – E parece-lhe que todo esse ofício é apenas um sobressalente para os déficits da vida?
     – Decerto; não fica excluída nenhuma outra atividade.
     – Nem política?
    – Nem política. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultra-montano, com a cláusula única de não ligar nenhuma ideia especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade do scibboleth bíblico.
     – Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?
    – Podes e deves, é um modo de convocar a atenção pública. Quanto à matéria dos discursos, tens à escolha: – ou os negócios miúdos, ou a metafísica política, mas prefere a metafísica. Os negócios miúdos, força é confessá-lo, não desdizem daquela chateza de bom-tom, própria de um medalhão acabado; mas, se puderes, adota a metafísica; – é mais fácil e mais atraente. Supõe que desejas saber por que motivo a 7ª Companhia de Infantaria foi transferida de Uruguaiana para Canguçu; serás ouvido tão-somente pelo Ministro da Guerra, que te explicará em dez minutos as razões desse ato. Não assim a metafísica. Um discurso de metafísica política apaixona naturalmente os partidos e o público, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforjes da memória. Em todo caso, não transcendas nunca os limites de uma invejável vulgaridade.
     – Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
     – Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é ínfimo.
     – Nenhuma filosofia?
    – Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na realidade nada. “Filosofia da história”, por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.
     – Também ao riso?
     – Como ao riso?
     – Ficar sério, muito sério...
   – Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter seus momentos de expansão alegre. Somente , – e este ponto é melindroso...
     – Diga.
    – Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. Que é isto?
     – Meia-noite.
  – Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa desta noite vale o Príncipe de Machiavelli. Vamos dormir.

MACHADO DE ASSIS